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segunda-feira, 24 de julho de 2017

Montanha-russa


Minha respiração normalmente lenta e profunda, agora aumenta sua frequência a medida que a velocidade do vento revirando meus cabelos também aumenta. O ar parece não conseguir chegar ao fundo de meus pulmões, tenho a sensação que perdi o controle sobre ele, assim como sobre mim. Ali, naquele momento me torno puramente instintiva, animal selvagem sem capacidade cognitiva. Esqueço como analisar, esqueço de pensar antes de agir, esqueço meu nome, minha história, minha vida. Eu apenas sinto. E sinto apenas o momento. Nada mais importa, tem relevância e memória. Existe apenas um buraco gélido no meu estômago que me inquieta e estremece. Quanto mais eu resisto, mais o sinto.

Às vezes penso em entregar-me, jogar-me dentro deste vulcão de sensações, mas sei que não aguentaria. Meu coração pararia. O que me mantém viva é o pouco de lucidez que me resta, é o balanço de minha mente tão ativa e pensante. Os limites da minha intensidade emocional estão sendo ultrapassados nesse brinquedo, então, por mais difícil que seja, eu preciso lutar. Ser engolida por essa correnteza não é uma opção.

Levantei meus braços e gritei tão alto como nunca havia gritado antes, como se eu estivesse descobrindo o poder da minha voz. Não sabia o que aquilo significava, se era uma tentativa de jogar para fora aquele buraco, ou se era um pedido de ajuda. A confusão toma conta quando não há espaço para pensamentos. Eu estou anestesiada pela adrenalina que uma montanha-russa nos injeta, sem noção de tempo, espaço, material e imaterial, real e irreal. Tudo é sensação.














segunda-feira, 22 de maio de 2017

São tantos tons de azul



A culpa se alastra por meu corpo, segue martelando que eu deveria ter ouvido minha intuição, a qual gritou para que eu não me levantasse naquela manhã fria. A cada hora que se passa, diante de banalidades, situações levemente azaradas e reações exageradas, meu corpo se tensiona mais um pouco, minha face se esforça para não demonstrar o descontentamento mais um pouco e minha vontade de voltar para a cama aumenta mais um pouco.

Ainda não é meio-dia e já me sinto exausta, não por ter feito esforço físico ou mental, acabo de sair da aula que mais gosto no meu curso. Porém, não consegui absorver a aula, não consegui olhar com a admiração de antes para minha professora, não consegui conversar com meus colegas, não consegui dimensionar o esforço que estava fazendo. Era muito, tanto que não sobrou-me energias para manter-me em pé. Desabei ainda no estacionamento da faculdade, mesmo resistindo e buscando conter a angustia emaranhada na minha garganta.

Todos nós passamos por dias ruins, daqueles em que nos deitamos desejando que fosse um sonho. Meu dia acabou ali, cinco horas depois de ter acordado. Eu não fui fraca, eu não quis chamar atenção, eu não sou mimada, nem preguiçosa, e muito menos egoísta. Eu apenas estava cansada, emocionalmente, carregando o fardo de ser uma pessoa sensível e instável.

Em dias que pinto minha alma com tons azuis demais, me acanho demais, explodo demais e espero demais, vejo olhares de pena, repreensão e incompreensão. Falam-me que eu não deveria me sentir assim, que é errado ser como sou, que há maneiras mais sutis de levar a vida, há outras cores além do azul, que há belezas e maravilhas das quais estou me privando. Eu não os ouço, porque sei que não me ouvem. Eu não busco entende-los porque sei que não buscam me entender. 

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Nosso avião logo partirá



A ansiedade bateu e saí para dar uma volta. Fui à padaria e pedi à garçonete que me servisse uma xícara de café. Eles só servem expresso e, como venho sempre aqui, já estou acostumado. Sei que café não ajuda nestes momentos, mas, de qualquer forma, não é dele que eu vou lhe falar hoje. É sobre como, apesar de todas as boas novas, a angústia tomou conta de mim. Você vai me dizer que más notícias são comuns em nossas vidas - até demais. No entanto, algumas delas nos pegam desprevenidos e nos deixam sem saber o que fazer. Foi o que aconteceu comigo recentemente.

Você sabe que sou louco pela minha namorada, que me arrisquei bastante ao entrar em um relacionamento com ela. Não que ela fosse o problema. O risco estava na distância que nos separa, pois moramos um tanto longe um do outro. Muitos namoros terminam por conta disso, e outros nem começam. Eu e ela preferimos optar por entrar nessa aventura juntos. Não me arrependo nenhum pouco e ouso até afirmar que foi a melhor escolha da minha vida.

Depois de mais de um ano de namoro, olho para trás e sorrio. Nós vencemos o medo e nos tornamos o casal dos nossos sonhos. O melhor disso tudo é que não precisamos mudar para isso acontecer. Agora a distância, que já não importava tanto, está para ser vencida de vez e um novo desafio se revelou a nós. Algo com o qual teremos de conviver até o fim. Essa novidade já trouxe mudanças, já trouxe receio, mas o que ela não trouxe foi a dúvida. Porque a certeza de que eu a amo está mais forte do que nunca.

Estou aqui para levantá-la na queda. Estou aqui para voar junto quando seus pés saírem do chão. Estou aqui para puxá-la de volta, se voar muito perto do sol. Aonde quer que ela vá, estarei junto, pois nunca fui embora de verdade e não vai ser agora que irei me acovardar. Quero que minha amada saiba que olho para o céu todas as noites esperando vê-la. Desejo tanto seu abraço. Tanto que conto os minutos para ouvir seu carro buzinando no meu portão. Peço que se você a encontrar pelo caminho, diga a ela que já estou pronto, não podemos nos atrasar. Nosso avião logo partirá.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Não sou tudo que você sempre sonhou



Decidi ser honesto comigo mesmo, porém, para isso, preciso ser honesto com vocês também. Primeiro, vou fazer minha cama, depois, de cima dela, vou cuspir algumas verdades em quem se prestar a ler isto aqui. Preciso disto, não consigo mais engolir tanta besteira. Já são visíveis em mim alguns fios de cabelos brancos, espinhas, rugas e outros sinais de que meu corpo não aguenta mais se calar.

Confesso que quando não menti, omiti. Quando não magoei, enganei. E não só aos outros. Minha ficha de delitos é maior do que parece. Fiz chorar quem mais amo e jurei não me repetir. Entretanto, algumas promessas estão carregadas de uma hipocrisia tão desgastada que me faz querer dar um fim a tudo isso.

É preferível que se encha o estômago com álcool, está dentro da lei. O certo é abrir mão de quem somos em nome de um bem maior. Aparência é tudo. Cale-se ou enfrente as consequências. Não se vive de amor. Reticências.

Quando foi que resolvemos adotar um discurso tão covarde? Por que não buscamos a verdade e o conhecimento por conta própria? Pra que dividir o mundo em dois lados? Esquerda e direita. Livros e internet. Café e chá. Violência e paz. Somos tanta coisa diferente contida em apenas um ser. Nós não admitimos. Desejamos, pensamos, sussurramos. Não admitimos.

Do que adianta pregar o amor e apoiar quem dissemina o ódio e a discriminação? Você beija a sua esposa, ele beija o marido. Você quer uma empregada, ela quer liberdade. Você quer mais dinheiro, ela quer o fim da miséria. Você tem seus vícios, eles têm os deles. Pare de se projetar nas outras pessoas. Somos todos diferentes e diferente não significa pior. Aprenda, pesquise, ouça, questione, respeite. Expresse sua opinião sem agredir. Se não, esse ciclo vicioso nunca terá fim.

Dou minha cara a tapa para tentar tocar meus leitores e sei que posso decepcionar ou magoar vocês. Mas não vou mais esconder minhas feridas como sempre fiz. Nunca quis incomodar, nem atrapalhar. Eu omiti minhas vontades. Agora, escolhi correr e vou pisar em seus pés. Se tudo der certo e vocês abrirem os olhos, entenderão o porquê de todas essas palavras, o porquê das minhas atitudes. Não tentem me rotular após tudo isso. Nada pode me definir. Sou tudo o que eu quiser e não tenho mais medo de dizer que não sou tudo que você sempre sonhou.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Que ele seja chutado, cuspido e rasgado


Pertenço a um nada seleto grupo de pessoas. Nós passamos a vida inteira perdidos, tentando encontrar um talento, uma habilidade que nos torne especiais como disseram que somos. Tentei tanto, e agora cansado, sinto-me tentado a desistir, deixar meu corpo deslizar em direção ao abismo. Por hora, deixem-me em paz e guardem seus conselhos para quem realmente queira segui-los.

Não quero saber qual a maneira mais fácil de enriquecer. Recuso-me a estudar os “comportamentos do público” para depois enganá-lo. Quero sim oferecer um coração ensanguentado, ainda batendo. Vou exibi-lo a todo o mundo e o que vão fazer ou dizer a respeito não é problema meu. Que ele seja chutado, cuspido e rasgado. Foda-se. Se um sorriso for aberto depois de tudo isso, saberei que o sacrifício valeu a pena. Há tantos corpos vazios por aí, pelo menos, a um deles serei útil.

Quero calar os falsos anjos que vendem paraísos engarrafados, incendiar o mercado de sonhos, soltar os cães em cima desses ratos. Tenho o meio, a mensagem e a consciência limpa de quem não tem nada a perder. Não alimento a ganancia de um conquistador, prefiro o ímpeto de um rebelde. Apenas peço aos meus entes queridos que me entendam, pois nesta noite o antigo eu vai morrer, nas mãos de um assassino com os dedos sujos de tinta. Desejem-me boa sorte, vou em direção ao meu norte.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Esfriando o colchão


Quando o sorriso se fecha, posso sentir
Ainda posso ouvir a voz que grita dentro de ti
Implorando por um abraço de alguém que está aqui
Ao seu lado ou não, a sua alma esfriando o colchão
Necessito perdão
Mesmo que o erro não exista
Ainda que eu insista que sou o problema
Ainda que não exista um maior dilema
Do que aquele sempre presente em meus versos
Do que aquele que fere os amantes mais confessos
Peço-te perdão, não entendo estes sentimentos
Peço-te paciência, pois ainda estou aprendendo

domingo, 9 de abril de 2017

Hoje a lua não apareceu

Está chovendo tanto que não consigo enxergar a lua. Ela deve estar escondida, assustada, se sentindo impotente perto que toda essa loucura que está acontecendo no céu. Ela deve estar se perguntando por que a chuva, as nuvens e os ventos de repente se tornaram mais importantes. Por que eles não a chamaram pra brincadeira e por que ela não tem forças pra aparecer, pra tentar falar com eles. Ela deve estar se sentindo sozinha, angustiada, e principalmente, indesejada. Pensando em como tudo isso aconteceu, como seus amigos sumiram, por que não havia ninguém ao seu lado. Um dia ela já ouviu palavras boitas, teve uma melhor amiga, foi para festas, se sentiu amada, se sentiu parte de um grupo, teve pessoas pedindo conselhos, abraços apertados, filmes com chocolate e risadas. Agora a única coisa que ela vê, sente e abraça é o vazio do universo. 

Talvez seja difícil para nós entendermos. São poucos que sentem essa solidão. E quando sentem, é por um dia. Mas e quando parece que vai ser por toda a eternidade? Tenho certeza que seu conselho seria que ela fizesse novas amizades, procurasse seus antigos amigos, fosse a uma balada ou um café. Ela quer fazer isso, ela quer se desprender dessa corrente que a aperta e sufoca, mas só de pensar em tentar, a corrente a espreme um pouquinho mais. Ela já tentou, mandou mensagens, fez ligações, foi simpática, mostrou interesse. Mas ninguém nota, só respondem que não vai rolar, só dizem que sentem saudade, que fica pra próxima. Ela falhou essa noite, com a chuva, as nuvens e os ventos. Ela falhará inúmeras vezes, com o sol, as estrelas e os cometas. Ela só deseja que na próxima noite de lua cheia, ninguém a deixe se esconder. 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Um abraço em 2016


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Todo fim de ano é a mesma história. Acho graça nas pessoas reclamando, pedindo que o próximo ano venha logo, como se esse fosse o segredo para uma nova vida, o passe de mágica para tudo melhorar. Entenda, também vejo o grande fechamento de um ciclo, a inspiração e força espiritual que essa virada traz. Eu sinto a névoa de felicidade que todos aspiram por ver uma chance de recomeçar. Este é com certeza o momento certo de jogarmos fora tudo aquilo que já andava nos fazendo mal a algum tempo e não encontrávamos coragem. É o empurrão final que precisamos pra nos libertar. Porém, veja bem, ao em vez de pisarmos e cuspirmos no ano que passou, vamos abraça-lo.

O ano de 2016 carregou muitos desastres e situações em que nos chocaram e entristeceram. Mas eu escolhi ama-lo. Não só porque foi um ano extremamente positivo e transformador pra mim, mas porque acho que essa sim é a verdadeira chave para abrirmos a porta de um novo ciclo. Apenas progredimos quando aceitamos, entendemos e abraçamos o que nos aconteceu, seja algo bom ou ruim.

Em nenhum outro ano me vi tão forte. Simplesmente porque não precisei. Extrai de mim tudo aquilo que eu não sabia existir. Confesso que me senti esgotada e frágil em muitos momentos, mas foram estes que me fizeram crescer. Confesso que quase desisti, larguei tudo e gritei aos ventos que a vida estava um inferno e eu não aguentaria mais. Mas eu aguentei, e mais do que isso, superei. Me afastei de pessoas tóxicas e reforcei laços maravilhosos. Vivi um pouco a tal vida adulta e enxerguei com olhos de criança. Senti toda a intensidade do ser.

Acredito estar pronta para 2017. Agarrada a prosperidade que a palavra "agradecer" nos proporciona. Ancorada nos mistérios da profundidade de um mar ainda não explorado. Preenchida pela força de uma busca constante por evolução e tranquilidade. Banhada com o brilho que um espirito blindado emana. Animada, exatamente como quem acredita na beleza dos novos ciclos deveria estar. 

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Amor de flor

Não sei que horas eram, não pensei em olhar, imaginei que ainda fosse madrugada. Estava tão escuro que eu mal conseguia enxergar, mesmo que meus olhos já estivem se acostumado a falta de luz, revirei na cama e lhe abracei. Seu corpo estava tão quente que eu precisei me destapar. Mas largar-lhe, isso eu não faria. Ele retribui o abraço me aninhando em seu peito, beijou o topo da minha cabeça e voltou a dormir. Eu, anestesiada por uma onde repentina de felicidade, não consegui voltar a dormir. Queria viver mil anos naquele momento, simples, mas profundo.

Os dias já foram nublados por aqui, tempestivos. Já doeu pra caralho. Já me alimentei de migalhas achando ser o suficiente pra me satisfazer. Já me enfiei em histórias sabendo que acabariam mal, só pela vontade vivê-las. Já sorri felicidade enquanto meu olhos berravam tristeza. Colecionei mergulhos onde a água dava no calcanhar. Aceitei atrasos, perdidos, grosserias. Já me senti forte usando armadura, sem saber o quão leve ficaria sem ela. Já me senti fraca por sentir demais. E depois de algumas cervejas, já falei em desistir do amor, jogar tudo pro alto. Sem saber me amar, já descuidei de mim. Já me vi como pedaços que precisavam ser juntados por alguém. Mas, ainda bem, já descobri que a cura pra toda essa dor é ser feliz sozinha, é gostar da própria companhia, do próprio corpo, da própria alma. Assim, comecei a aceitar apenas aqueles que me faziam bem, traziam amor de mais, jamais de menos.

Começou a amanhecer, a luz do sol entrava pelas frestas da janela e se desenhava no teto do quarto. Me acomodei novamente entre seus braços, de forma que eu enxergasse seu rosto. Seu semblante tranquilo me faz sorrir. Quero ficar ao teu lado. Não por carência, não por necessidade, jamais com sentimento de posse. Mas sim porque gosto de tua companhia, do teu cheiro, de tua risada estranha. Gosto das nossas conversas, nossa vontade de conhecer o mundo, nossa maneira de enxergar e nos expressar. Nos conhecemos em um momento ruim, vivemos momentos bons, fizemos do tempo nosso aliado, professor. Soubemos esperar, detectar o momento certo. Aquele onde nos transbordamos.





quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Aprendendo a amar

Amar é um dos meus passatempos preferidos. E isso já se tornou rotina, notícia velha, daquelas que a gente passa reto, nem lê. Eu tento ficar quietinha, me entreter com o trabalho, um filme, uma música. Mas não adianta, quando percebo já estou suspirando, cheia de pensamentos que trazem um gostinho bom a boca, que fazem cachorrinhos pularem e estremessem o corpo de qualquer um da cabeça aos pés. Por todos os lados vejo fagulhas de esperança, gestos carinhosos e palavras cheias de sentimento.

O amor é núcleo do universo para mim. É o principal nutriente para se plantar o bem. E quando esse jardim está florido, não consigo me conter. Ando com a felicidade estampada no rosto, falante e tranquila. Cheia de motivações, querendo que todo o mundo acredite, que todo o mundo sinta essa atmosfera de paz. Depois que aprendi a senti-la, não ouvi mais a solidão bater em minha porta.

Ele já foi meu inimigo, já me fez chorar, sentir raiva e querer sumir. Mas simplesmente porque eu não entendia sua essência, ainda não havia conhecido a palavra solitude, não havia aprendido a diferença entre amar e se apegar. Por vezes nos deixamos levar pela vontade de se apropriar das coisas, das pessoas, esquecemos de apreciar, observar de longe, deixar voar.

Todo esse apego, essa apropriação, é o que nos frustra. Afinal, nada é nosso nessa vida, a não ser o que pensamos e sentimos. O resto, é do mundo. Por isso transformei o amor em onda, em carinho, em algo inatingível. Em vez de usá-lo para suprir necessidades biológicas, carência e vazios. Uso-o para sorrir e deixar a vida mais leve.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Ontem, vulgo sempre


Ontem, quando te abracei, só conseguia pensar no quanto gostaria de permanecer. No quanto teu corpo me aquece e tua presença traz paz. Pensava no teu beijo gelado de cerveja, aquele que me arrepia e quando tu põe a mão no meu cabelo fazendo minhas pernas amolecerem. Fiquei com aquela cara de boba apaixonada, te admirando, pedindo aos céus que teu sorriso fosse pra sempre meu. 

Ontem, quando te chamei pra beber um vinho, pensava em ouvir tuas histórias, aquelas sem graça, mas que me fazem rir pelo teu jeito de contar. Queria saber mais da tua vida, mais do teu dia, mais das tuas estranhezas. Talvez eu ficasse corada, talvez não conseguisse esconder, talvez até me declarasse. Afinal, tu sabe que vinho me deixa ainda mais maluca, ainda mais sensível, ainda mais apaixonada. Se é que é possível.

Ontem, quado disse que iria embora, queria que tu me convencesse de ficar, trancasse a porta, engolisse a chave e, com jeitinho, me puxasse pelos cabelos. Pensei que ainda dava tempo de ver um filme, daqueles bem longos e comer uma pipoca. Ah!Já te contei que as de microondas só ficas boas na tua companhia?

Ontem, quando te pedi uma massagem, estava morrendo de saudade do teu toque. Precisava sentir teus dedos percorrendo minhas costas, assim como preciso de ar para sobreviver. Fingi que não existia um mundo lá fora e que teu cobertor era refugio em tempos de guerra. Tu riu da minha concentração contando tuas pintinhas, são tantas, espalhadas, confusas e lindas. Pensei que não seria ruim me perder ali, mas que também seria bom demais se me encontrasse. Então, de vez em quando me perco, outras vezes me acho. Mas sempre em ti. 

terça-feira, 22 de março de 2016

Acordei meio escorpiana

Tenho um pé em libra, outro, em aquário. Mas hoje acordei com meu sol brilhando intensamente. Senti vontade de conversar com meus demônios, gastar toda minha energia para senti-los, liberta-los. Levantei da cama e meus olhos chamaram minha atenção no espelho, inchados de sono, fixos no horizonte, mas magnéticos, um portal mágico que todo escorpiano esconde. Estava com os impulsos apertados, apurados, jogando-me de um lado para o outro sem tempo de pensar, de planejar o próximo passo.

Mochila preta nas costas, roupa monocromática. Postura de quem pouco fala e mais escuta. De quem balança a cabeça e observa, consegue captar o barulho mais distante, e ao mesmo tempo, teu gesto mais sutil. Expressão de quem tenta equilibrar as emoções, mas só as torna mais desordenadas. Se é pra encher o copo de cerveja, que seja no mínimo dez vezes. Se é pra trabalhar, que seja até as pálpebras tremerem, para que depois o descanso seja tão bom quanto o orgulho de fazer algo bem feito, com vontade. Visceral e impetuosa.

Sozinha no quarto com pouca luz, vejo-me em paz. Cheia de vontades a serem mortas. Pensamentos a serem alinhados. Borboletas falsas na barriga. Alimento minha autodescoberta, tentando decifrar esse ser, que por vezes nem eu entendo. E se bater o desejo, é provável que me declare antes da lua desaparecer. Que caia, desmorone. Que me coloque na posição de exagerada, rainha dos dramas.

Quem dera não fosse tão encorajada, tão "aqui e agora". Mesmo com a melhor das intenções, às vezes atropelo momentos, pulo fases, assusto os que me rodeiam com minha urgência. Tanta fome que quase engulo a vida,  a estrada. Se precisar trocar a pauta, não tem problema. Toda uma euforia que facilmente se acaba e recomeça. Surge dos picotes de papel, uma folha novinha.

Mas ruim mesmo, deve ser para aqueles que perdem aquele segundo de tesão, que não choram ao ver uma propagando bonita na tv, que ficam calculando os caminhos, não se permitem alternar rotas, que perdem aquele momento perfeito para dizer "eu te amo" sem que pareça clichê ou falso, que torcem o nariz e não experimentam aquela comida feia que pode ser deliciosa, que perdem a oportunidade de ser feliz "aqui e agora".



sábado, 5 de março de 2016

Pequenos diabos

Fiquei observando-a enquanto falava, seus gestos delicados, sua risada alegre, seus olhos meigos. Ela parecia não fazer ideia do que dizia, incongruente e surreal, porém conseguia prender minha atenção. A música de fundo estava perfeita para a ocasião e realçava sua beleza calma e natural. A lua estava escondida no céu, mas não me importei, seu sorriso bastava. Os ponteiros do relógio corriam rápido demais enquanto esperávamos o sol, mas houve tempo suficiente para que eu me encantasse.

Ela fica facilmente entediada, tem crises de autoestima, geralmente se atrasa, mete os pés pelas mão, se joga e não sente medo do próximo passo. Ela prefere quebrar a cara a ver suas páginas vazias, sem aventuras malucas. E que me desculpem as santificadas cheias de boas maneiras, mas são dessas malucas que eu gosto. Alguém que menos julgue minhas sandices e mais acompanhe meus passos, pequenos diabos enviados à Terra encarregados de me enlouquecer de paixão.

Nada contra vocês mocinhas, mas como iriam entender meus desejos que queimam antes mesmo que eu consiga fazer algo para apaga-los? Em que ápice de loucura vocês iriam rir das minhas piadas sem graça e me enxergar com os olhos de quem corre na chuva e não fica esperando passar. Seria apenas mais uma daquelas tentativas frustadas de romance, que não pegam embalo, acabam cedo demais por não estremecer.

Sempre pertencerei a esses seres mágicos, iluminadores de alma, doidos de pedra. Seres que sabem lidar com meu lado mais obscuro e saber extrair o mais colorido. Brincam de seduzir e não reclamam da balada a noite inteira. E talvez tudo isso nem seja pré-requisito para os primeiros encontros. Mas é a seleção natural a longo prazo. Prova eliminatória para ganhar o troféu de bruxa. Fatias de loucura que sairão de nossas beiradas. E ela ganhou.