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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

É só questão de tempo



Você teria coragem de deixar tudo pra trás e embarcar em um navio rumo a uma terra desconhecida? Essa pergunta me veio em mente depois de ouvir a história de um dos meus antepassados, um jovem negro, Pernambucano, que vivia na primeira metade do século XIX. Alguns dizem que foi por acidente que veio parar aqui no sul, outros especulam que tenha sido uma fuga da escravidão, o que faz mais sentido.

Além dele, muitos dos meus ancestrais fizeram seu caminho cruzando o mar. Um deles veio da Europa continental, fugindo da Primeira Guerra Mundial, e outros vieram do arquipélago dos Açores, com a esperança de uma vida melhor no “Novo Mundo”. Um novo mundo já habitado por milhões de pessoas, antes mesmo do tal “Descobrimento”. E, com certeza, corre no meu sangue o DNA de muitos desses milhões de nativos. Como um bom brasileiro, sou fruto de várias misturas étnicas e tenho orgulho disso. Porém, não quero me desviar do assunto central deste texto, daquela pergunta inicial.

Já tive coragem de cruzar o Atlântico uma vez, mas questiono um pouco essa coragem. Pois quando fui, sabia que logo retornaria ao conforto do meu lar. Não teria que trabalhar. Teria apenas de estudar, curtir e conhecer novas terras. Hoje tenho dúvida da minha coragem quando leio as histórias de verdadeiros aventureiros, como Thoreau, Céline e Kerouac. E mais ainda quando penso nos meus ancestrais. Será que eu conseguiria fazer o mesmo que eles?

Vejo meus pais planejando seus futuros em sítios a quilometros de distancia de qualquer cidade. Vejo meu trabalho começando a me sustentar de verdade, sem me prender físicamente a nenhuma empresa. Vejo cada vez menos motivos para ficar aqui, preso a segurança sufocante da minha cidade natal.

Não me entenda mal, amo Garopaba. Este sempre será o meu lar, o meu porto. Mas neste momento, meus pés estão inquietos. Meus olhos querem novidade. Meu pulmão anseia por novos ares. Cada molécula do meu corpo sente a necessidade partir. É só questão de tempo. Logo chegará a minha vez de embarcar em um navio, rumo a mais um capítulo da história da minha vida.

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