Páginas

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Dois polos

A fragilidade vem se alastrando em mim como uma doença. Minha imunidade contra ilusões está tão baixa que não importa se o que me acompanha é a extrema felicidade, calmaria, ou a profunda tristeza. Exposta aos momentos de borbulha, aos exageros da falta de razão. Cada pequeno prazer se torna jarra transbordante e minuscula tristeza se torna nuvem negra tempestuosa, rio de dores acumuladas querendo correr ao mesmo tempo. Achar um abraço o melhor do mundo; um estresse, motivo de jogar tudo para o alto.

Foi numa noite, qual o vento era gelado e a lua estava cheia, esse vírus se instalou em mim. Minhas bochechas estavam coradas do vinho e meu sorriso era largo, conversava e gargalhava. Um pontada me avisou, contaminada. Um torpor repentino me fez pender para o lado, cabeça zonza pelo emaranhado de imagens e sentimentos, álbum daquilo que se quer viver ou, quem sabe, esteja por vir. Não houve sintomas iniciais, veio como um tapa, inesperado e forte. O casaco pesado de lã esquentou ainda mais e não consegui prestar atenção no que falavam pra mim. Aquela onda de agonia de quem chuta o cobertor e só se acalma ao sentir o corpo do outro. 

Dormir, às vezes é aconchego, outras, tentativa de fuga. Entre um sonho e outro que mostra as verdades reprimidas, estoura a bolha de proteção que criei, me leva ao paraíso e não raramente ao inferno. O apetite, ápice de alegria, mistura de sabores que carregam a beleza do mundo. O chocolate, templo sagrado, meditação espontânea. A solidão, professora, às vezes megera, às vezes melhor amiga. A companhia, às vezes falta, outras transborda. De guarda baixa, basta um descuido pra me entregar. Às vezes tão leve que nem me sinto, outras tão pesada que nem me aguento.

E assim vai, de fase em fase, de extremo a extremo, como outros vírus. Inconstante. Mutável. Quieta, ou tagarela. Sofro e me alimento com a mesma intensidade, mas nem sempre da mesma pauta. Disseram que o remédio é o controle, algo que pouco tenho. Disseram que é preciso equilíbrio, mas este só quero para limpar meu céu. As delicias, deixe que elas fiquem assim, exageradas, sem fim. A cura para esse desgraçado do amor é só mais amor.



Nenhum comentário:

Postar um comentário